5. COMPORTAMENTO 24.10.12

1. QUEM QUER SER NOVIA
2. DE ONDE VEM TANTA AUTOCONFIANA?
3. O RETRATO DA NOVA FAMLIA
4. CASO REABERTO
5. PCC ROMPE FRONTEIRAS

1. QUEM QUER SER NOVIA
Nos ltimos anos, o nmero de freiras vem caindo no Brasil. Como  a rotina das jovens que, nos dias de hoje, decidiram trocar famlia, emprego e badalao por uma vida de regras, oraes e trabalhos voluntrios
Natlia Martino

O dia nem raiou e um grupo de dez mulheres j est reunido em frente a uma discreta cruz. O silncio, que chega a ser inquietante,  quebrado poucos minutos depois por um coro de diferentes sotaques que entoa versos bblicos na pequena capela.  assim que comeam todos os dias no Noviciado Nossa Senhora das Graas, da Congregao Religiosa das Filhas de Maria Auxiliadora, ou Salesianas de Dom Bosco, em So Paulo. 

Sete novias, provenientes de diferentes Estados, so diariamente acompanhadas na rotina de oraes, aulas e trabalhos por trs religiosas formadoras. As novias, com idade entre 21 e 26 anos, se preparam para a vida religiosa h pelo menos quatro. Fazem parte de um grupo cada vez mais raro, o de jovens que decidem fazer os votos de pobreza, castidade e obedincia propostos pela Igreja Catlica a elas.
 
A deciso significa mudanas radicais de vida. Quem v Elaine de Morais Ferreira, 26 anos, caminhando confiante pelos corredores do noviciado, por exemplo, no imagina que h pouco mais de quatro anos ela era frequentadora assdua de shows de msica sertaneja. Criada em Rondonpolis, em Mato Grosso, trabalhou com telemarketing em duas empresas de logstica e foi vendedora de roupas ntimas na loja da famlia antes de optar por ser freira. Minha vida era supernormal, gostava de danar e de sair com as amigas, usava o carro do meu pai para ir a festas, conta. Por coincidncia, no dia em que tomou a deciso definitiva de entrar para o noviciado recebeu a notcia de que havia sido aprovada em letras na Universidade Federal de Mato Grosso. Precisei fazer uma opo e escolhi a vida religiosa, orgulha-se.

Os estudos universitrios so incentivados, mas apenas depois do perodo de formao. s novias,  exigida dedicao integral. Quando se tornam religiosas e podem ingressar na faculdade, costumam fazer vestibular para o curso indicado pela congregao. So comuns estudos nas reas de administrao e pedagogia. Formadas, o local onde iro trabalhar tambm ser definido pela irmandade. O que a superiora decidir ser a voz de Deus, ela vai me enviar para onde precisarem de mim, diz Rosalva Veiga Batista, 22 anos, novia indgena da etnia bar, do interior do Amazonas. Isso  resultado do voto de obedincia, o mesmo que as faz dizer apenas  a tradio da Igreja diante de qualquer questionamento sobre dogmas e rituais catlicos. 

As trajetrias das jovens novias so marcadas por uma ligao estreita com o catolicismo desde a infncia. Nenhuma, porm, cita um fato especfico que tenha desencadeado a vocao. As pessoas acham que em algum momento Deus aparece e nos diz para seguirmos esse caminho, conta a novia Kelly Gaioso de Andrade, 25 anos, natural do Maranho. Mas no  assim. Descobrimos a vocao no dia a dia. O chamado para a devoo  o que parece uni-las, apesar das dvidas existentes antes da tomada final de deciso. Via as religiosas da minha cidade fazendo trabalhos em orfanatos e escolas, achava bonito e queria ser como elas, conta Vanessa Cristina da Silva, 21 anos, de Minas Gerais. Mas, nas novelas, elas eram sempre to srias, to tristes, que eu tinha medo de seguir esse caminho. 

Esse esteretipo no se confirma entre as novias. Sempre sorridentes, brincam cantando pardias de msicas da cultura pop. Tambm so animados os relatos sobre as festas e as olimpadas organizadas por elas. Gosto de danar e aqui continuo fazendo isso, no h por que sentir falta dos shows que a gente frequentava antes, diz a matogrossense Elaine. Como qualquer moa de 20 e poucos anos, todas possuem e-mail e perfil nas redes sociais. O grande tabu continua sendo falar sobre os possveis encontros amorosos antes do convento. Todas desconversam e dizem um tmido eu era como qualquer outra jovem.

Para seguir a vida religiosa, uma das principais exigncias hoje  ter o ensino mdio completo. A partir dos 17 anos, as meninas iniciam a formao que dura em torno de cinco anos. No caso das salesianas, a ltima etapa  sempre cumprida em So Paulo, onde os dias transcorrem entre oraes, estudos, leituras e trabalho. Algumas horas tambm so reservadas para aulas de canto e msica. Um dia por semana, atuam como educadoras na rea de formao humana com os jovens do Centro Profissionalizante Dom Bosco. Aos sbados tambm desenvolvem um trabalho pastoral com os grupos de crianas e adolescentes da Parquia So Joo Bosco. 

A rotina  espartana. No noviciado, todas acordam cedo, antes das 6h, e dormem antes das 23h. Ao longo do dia, vivem tudo comunitariamente. Dormem em beliches, limpam a casa que as abriga, preparam as refeies e se renem para rezar. Com exceo de um tempo reservado  orao e aos estudos individuais, tudo  feito em conjunto, mesmo quando saem do noviciado para passear em um parque ou ir ao cinema, por exemplo. Celular? Para que se estamos sempre juntas? Quando samos, levamos um telefone para o grupo, explica a maranhense Kelly. Itens pessoais, como roupas e artigos de higiene, devem ser solicitados  congregao, uma vez que as jovens no tm acesso a dinheiro.  uma preparao para o voto de pobreza, que simboliza o desprendimento material.

Quando saem do convento, as novias e as freiras se mesclam nas multides da rua sem serem notadas. Desde o Conclio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, o hbito deixou de ser uma exigncia. As irms salesianas usam calas jeans, tnis e camisas, sempre com mangas. No h regras para o uso dos cabelos. O smbolo da congregao  apenas um crucifixo das Irms Filhas de Maria Auxiliadora que as religiosas carregam no peito. Toda escolha na vida implica abrir mo de outras coisas, diz a novia Kelly. Nossa rotina no  baseada no que no podemos fazer, mas no que decidimos fazer ao entrar para a vida religiosa.  o sim a essa vida religiosa que nos define, nunca os nos aos quais nos submetemos.


2. DE ONDE VEM TANTA AUTOCONFIANA?
Como a inteligncia emocional - alm de golpes certeiros - ajuda o campeo Anderson Silva a nocautear adversrios
Rodrigo Cardoso

 RECEITA DE SUCESSO - Sempre falo para ele: Se no sabe de onde veio e onde est, no sabe para onde est indo, diz Ramon Lemos, treinador de Anderson Silva
 
Psicopata Americano. O apelido d a dimenso do quo duro pode ser o lutador americano Stephan Bonnar, 35 anos, quando solto dentro do octgono do Ultimate Fighting Championship (UFC), maior evento de MMA do planeta. No sbado 13, para o seu azar, ele teve de dividir o espao no UFC Rio 3 com o maior atleta da histria da modalidade, o brasileiro Anderson Silva. Aos 37 anos, invicto no torneio desde 2006, Anderson foi escalado s pressas e teve pouco mais de um ms para se preparar. Mesmo assim, ganhou a luta no primeiro round, depois de derrubar o americano com uma joelhada no tronco e nocaute-lo com uma sequncia de socos. No foi, porm, a sua exploso muscular que surpreendeu quem assistia  luta. O brasileiro deu um show de autoconfiana, uma competncia emocional prpria de quem  dotado de autoconhecimento e pleno domnio do campo no qual atua. 

Isso ficou claro quando, antes de ele liquidar o oponente, baixou a guarda, encostou o corpo na grade e pediu que Bonnar o golpeasse. Entre uma esquiva e outra, Anderson levou socos no rosto, mas seguiu com a mesma ttica. Com o Psicopata Americano a um brao de distncia, encontrou brecha, ainda, para, no meio da luta, dizer calma, calma ao seu treinador, que, desesperado, gritava para ele no agir daquela maneira. O campeo, porm, no estava se exibindo ou caoando do oponente. O que se viu ali foi uma demonstrao de sabedoria. Se fosse uma atitude egoica, Anderson iria se dar mal. Mas ele sabia o que estava fazendo. E a autoconfiana surgiu  como sempre ocorre  em um contexto que o sujeito domina, afirma a professora de neurologia Denise Menezes, da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP), uma especialista em neurologia e medicina mente-corpo.

Essa habilidade mental no foi construda com socos em saco de areia ou levantamento de peso. A autoconfiana  uma condio que as pessoas desenvolvem ao longo da sua histria. A avaliao das experincias vividas e de metas factveis traadas em um plano so o ponto de partida. Na medida em que uma pessoa passa a ter vitrias na vida, mesmo que modestas, ela se sente reforada a buscar algo maior, explica a psicloga do esporte Katia Rubio, da Universidade de So Paulo (USP). Foi nesse processo que Anderson se tornou cada vez mais confiante a ponto de sua postura ser tida, inclusive, como uma pr-vitria sobre adversrios suscetveis a uma imagem predeterminada. 

A vida de Anderson no foi fcil. Aos 4 anos, deixou So Paulo e foi morar com os tios, em Curitiba, porque seus pais no tinham condies de cri-lo. L, treinava boxe tailands sem deixar de cumprir suas obrigaes como atendente de uma rede de fast-food, onde trabalhou por sete anos. Do seu tio, um ex-policial, no se esquece do jeito como ele o encarava.  um exemplo clssico de algum que aprendeu com a vida. Esse processo, segundo a professora Henriette Tognetti Morato, do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, Desenvolvimento e Personalidade da USP, potencializa a possibilidade de a autoconfiana surgir. Hoje, Anderson diz perceber no olhar do adversrio quando esse titubeia. Sempre falo para ele: Se no sabe de onde veio e onde est, no sabe para onde est indo, conta Ramon Lemos, treinador de Anderson. Apesar de ser uma condio psquica, a autoconfiana pode produzir respostas fisiolgicas que deixam o indivduo ainda mais seguro e hbil, de acordo com o psicobilogo Ricardo Monezi, pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Universidade Federal de So Paulo. Anderson tem sua prpria avaliao, que pode servir de bssola para os outros. Acredito que a autoconfiana vem de voc acreditar em si mesmo acima de tudo, disse o lutador  ISTO. E de muito treino.  


3. O RETRATO DA NOVA FAMLIA
Censo mostra como a ampliao da participao feminina no mercado de trabalho, a maior expectativa de vida e as facilidades para se divorciar mudam a cara da sociedade brasileira 
Tamara Menezes 

TENDNCIA - Herriot e Rosana so um exemplo da nova organizao familiar: esto no segundo casamento, no oficializaram a unio e as filhas dela moram com eles 

A gerente comercial Rosana Fonseca, 50 anos, e o analista de sistemas Herriot Carvalho Filho, 51 anos, se reencontraram numa festa depois de trs dcadas, em 2008. Namorados na adolescncia, seguiram caminhos diferentes, casaram com outras pessoas, tiveram dois filhos cada, e se separaram. Menos de um ano aps o reencontro, j estavam dividindo a casa. A famlia veio pronta: as duas filhas de Rosana moram com eles e os dois de Herriot, que vivem com a me, se juntam ao grupo em fins de semana. Segundo o censo de 2010, divulgado na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE), Herriot e Rosana fazem parte de um contingente de 4,4 milhes de lares compostos por pessoas que se separaram anteriormente ou ficaram vivas. Tambm esto entre os 36,4% dos casais que no oficializaram a unio nem no civil nem no religioso. Assim, como as meninas integram o grupo de 2,5 milhes de enteados que vivem com padrastos ou madrastas. 

Os dados mostram como a sociedade brasileira est se organizando de forma muito parecida com a europeia e a americana. Basta ver como aumentou o nmero de pessoas que vivem sozinhas, os registros civis de casamentos homoafetivos, os divrcios, as mulheres chefes de famlia, alm da queda intensa na fecundidade, fenmeno observado em todas as regies brasileiras, independentemente de raa ou nvel econmico (leia quadro).  o novo retrato do Pas.

Todo mundo se d bem. As filhas da Rosana, mais novas, trocam experincia com os meus filhos, que j esto na faculdade, atesta Herriot, que se considera pai de todos. Essa  a primeira vez que o IBGE aferiu a categoria famlias reconstitudas, que incluem enteados e novos arranjos. O filme Os seus, os meus, os nossos (1968)  citado por especialistas como referncia  a trama retrata uma famlia americana com filhos de unies anteriores. O que j acontecia nos Estados Unidos e na Europa nos anos 1970 virou tendncia aqui e a nova realidade requer jogo de cintura de todos. A convivncia com enteados quase sempre  conflituosa porque rene pessoas com costumes diferentes, diz a psicloga e especialista em psicopedagogia Andreia Calada. Mas com flexibilidade, todos podem conviver.
 
O segundo (ou terceiro) casamento aumentou na medida em que cresceram o divrcio  quase duplicou em uma dcada  e, igualmente, a expectativa de vida. H nuances que s agora so capturadas. Os recasamentos e as unies no oficializadas geram impactos que sero sentidos a curto e longo prazos, afirma a sociloga Clara Arajo, pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Segundo ela, alteraes recentes na legislao, como divrcio simplificado e regulamentao da unio estvel, facilitaram a reconfigurao das famlias.

As formas diferentes de organizar a casa e a famlia tambm esto ligadas  maior participao da mulher no mercado de trabalho. Mulheres no comando dos lares j so 32,2%, contra 22,2% dez anos antes. Isso reflete uma novidade do ponto de vista cultural, acredita Gilson de Matos, estatstico do IBGE. As despesas da casa agora so compartilhadas entre os moradores em 34,5% dos domiclios. E aumentam os casais sem filhos que agora chegam a 20,2% do total. A taxa de fecundidade menor mostra que mais gente decidiu no ter ou postergar a gravidez para, primeiro, se firmar profissionalmente, avalia Matos.
 
Fora do casal tradicional, as mulheres so maioria em vrios critrios: na criao de filhos sem parceiro, na opo de morar s e no nmero de relacionamentos homoafetivos (53,8%). Confirmando a expectativa de vida maior para elas, h mais vivas. As idosas com 65 anos ou mais so a parcela mais expressiva das residncias onde vive apenas uma pessoa, que totalizam 6,9 milhes de lares. Essa forma de viver, que implica mais gastos e mais vulnerabilidade, alcana 12,1% dos imveis pesquisados, em sintonia com o que acontece em pases desenvolvidos. Na Europa, a mdia  de 27,7% das residncias ocupadas por apenas uma pessoa. Mais uma faceta da nova sociedade brasileira.


4. CASO REABERTO
Laudo da Polcia Tcnico-Cientfica revelado com exclusividade por ISTO leva  reabertura do inqurito sobre o assassinato do executivo da Yoki Marcos Matsunaga

 SIMULAO - Ilustrao mostra como possivelmente se deu o esquartejamento de Matsunaga
 
O promotor de Justia Carlos Cosenzo pediu na semana passada a reabertura do inqurito que investigou o assassinato e o esquartejamento do ex-diretor-executivo da Yoki, Marcos Matsunaga, em maio. A retomada do caso foi motivada, principalmente, por um laudo do Instituto de Criminalstica da Polcia Tcnico-Cientfica de So Paulo, concludo depois do fim das investigaes policiais. Ele indica a presena de outro homem, alm do empresrio, no momento do esquartejamento. Revelado com exclusividade por ISTO, no ms passado, o documento mostra que exames de DNA realizados em 30 amostras de sangue retiradas do quarto onde Matsunaga foi retalhado apontam para a presena no local de uma terceira pessoa, do sexo masculino, alm do empresrio e da sua esposa, Elize, que confessou o crime e afirmou ter sido sua nica autora. Nunca me convenci de que ela sozinha, com seu porte franzino, conseguisse fazer tudo aquilo, disse o promotor.

Uma vez confirmada, a ajuda de outro homem na consumao do crime enfraquecer a defesa de Elize, Seus advogados sustentam que o crime foi passional, cometido sob forte emoo. Ganhar fora, ento, a verso de que o homicdio foi planejado e teve motivaes patrimoniais. Isso pode levar a uma elevao da pena da acusada caso ela seja condenada. O advogado de defesa, Luciano Santoro, diz que o exame de DNA no local no pode determinar a participao de um terceiro elemento na cena porque no h como saber quando essa outra pessoa esteve no quarto. A especialista em percia criminal Rosngela da Rocha Souza, que analisou o documento a pedido da ISTO, afirma, porm, que o laudo deixa claro que as manchas de sangue so contemporneas ao crime. So do evento do corte do corpo e no h amostra anterior a ele, disse. O sangue  de outro homem que participou do esquartejamento, afirma a especialista.
 
O exame necroscpico realizado em Matsunaga ajuda a reforar a hiptese de que Elize teve ajuda. Foram identificadas diferenas substanciais entre os cortes realizados nos membros superiores e os feitos no resto do corpo. Os primeiros apresentam retalhos de pele, indicando dificuldade ou desconhecimento anatmico da regio, como relatado no documento produzido pelo mdico legista Jorge Pereira de Oliveira. Os demais apresentam caractersticas de que foram praticadas por pessoa ou pessoas com noes de anatomia. Acredita-se, assim, que os cortes nos membros superiores tenham sido feitos por uma pessoa que, ao contrrio da enfermeira Elize, no tinha conhecimentos de anatomia. Agora, com o laudo do Instituto de Criminalstica, essas constataes sero reavaliadas. Alguns depoimentos dados  Justia podero tambm ser revistos, como o da dentista Luciana Yukari Hirayama Chinen, que disse ter sido procurada por Mauriceia Jos Gonalves dos Santos, uma das babs da famlia, para tentar comprar um atestado mdico para o marido, Andr Rodrigues de Lima, na tentativa de justificar suas faltas ao trabalho nos dias que se seguiram ao homicdio.

O Ministrio Pblico j ouviu cinco pessoas e vai coletar material biolgico dos suspeitos para confrontar com o sangue encontrado no quarto. Para Cosenzo, o coautor do crime era algum de confiana da famlia. O novo inqurito ser conduzido pelo Departamento de Homicdio e Proteo da Pessoa (DHPP) da Polcia Civil do Estado de So Paulo, responsvel tambm pelas investigaes que resultaram na priso de Elize. Em nota, a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurana Pblica afirmou que as novas investigaes j comearam. Com o ru preso, o inqurito precisa ser concludo em 30 dias e seria necessrio um tempo maior. Nesse perodo, nem o laudo da Polcia Tcnico-Cientfica estava pronto, diz o promotor, que elogia o trabalho do DHPP no primeiro inqurito do caso. 

Enquanto as investigaes so retomadas, Elize continua presa na penitenciria de Trememb, no interior paulista, e aguarda a deciso judicial para saber se vai ou no a jri popular. De acordo com o promotor Cosenzo, o processo judicial contra ela no ser prejudicado pelo novo inqurito, uma vez que a investigao no vai tratar dos atos praticados pela r. Caso seja identificado o outro homem que supostamente esteve no quarto no momento do crime, ele responder por coautoria de homicdio e ocultao de cadver. Se vamos encontrar ou no essa terceira pessoa eu no sei, mas temos a probabilidade de estar no muito longe dela, diz o promotor.


5. PCC ROMPE FRONTEIRAS
Documentos da Justia revelam que a organizao criminosa paulista passou a atuar em todo o Brasil, e autoridades responsveis pela segurana nos outros Estados unem foras para evitar seu crescimento
Flvio Costa

 EXPORTAO - Marcola, lder da faco: convivncia na priso gerou filhotes do PCC em vrios Estados
 
Integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) que assaltam bancos no Nordeste, onde distribuem armas e drogas para traficantes locais. Tabletes de maconha apreendidos com a sigla do Partido do Crime em cidades de Minas Gerais. Assaltantes de caixa eletrnico batizados em presdios de Santa Catarina e, posteriormente, treinados por comparsas paulistas. Os casos relatados acima so alguns exemplos recentes dos tentculos do maior e mais organizado grupo criminoso do Brasil alm das fronteiras de So Paulo. O ltimo episdio foi uma rebelio na Casa de Custdia de Teresina, no Piau, ocorrido na semana passada. O lder, Jos Ivaldo Celestino dos Santos,  membro do PCC, segundo o secretrio de Justia do Piau, Henrique Rebelo, que j tentou, sem sucesso, transferi-lo para um presdio federal. Um levantamento realizado pelo procurador paulista Mrcio Srgio Christino mostra as digitais da faco em dezenas de processos criminais existentes em tribunais de norte a sul do Pas. Os documentos so uma indicao de aes do PCC em outros Estados, diz o procurador, especialista em combate ao crime organizado.

A principal forma de aproximao entre integrantes da faco paulista e criminosos de outros Estados  a convivncia no sistema penitencirio. No Maranho, por exemplo, foi criado o Primeiro Comando do Maranho (PCM) nas prises estaduais. Isso aconteceu depois que presos maranhenses em presdios federais estabeleceram relaes com membros do PCC, diz Alusio Mendes, secretrio de Segurana Pblica do Maranho. H dois anos, 18 integrantes do PCM so mantidos em isolamento. H trs semanas, Ivo Maranho e Gustavo Alves Feitosa, ambos integrantes da faco paulista, foram presos na cidade de Imperatriz (MA), aps uma srie de roubos em agncias bancrias no Par, Tocantins e Piau. Com essa aproximao, nos ltimos anos surgiram espcies de franquias do crime, a exemplo da Comisso da Paz, na Bahia, ou Al-Qaeda, na Paraba. No significa que o PCC domina o submundo desses locais, e sim que exerce influncia por meio de parcerias criminosas. Somente este ano, operaes da Polcia Federal prenderam membros da quadrilha no Acre, Par e em Mato Grosso do Sul. 

Os primeiros sinais de expanso do PCC foram detectados oficialmente na CPI do Trfico de Armas, em 2006, quando surgiu a informao de que o lder do grupo, Marcos Williams Herbas Camacho, o Marcola, havia designado o traficante Sidnei Romualdo, paraibano criado em Diadema (SP), para liderar as aes no Nordeste. Ele foi preso em Pernambuco, mas a expanso no se deteve.

Sentenas de desembargadores alagoanos mostram que nos ltimos trs anos seis bandidos do PCC foram transferidos de Alagoas para presdios federais.  o caso de Luciano Soares da Rocha, que comandava o trfico em Unio dos Palmares (AL), e est preso h trs anos. Alm disso, uma deciso do tribunal do Rio Grande do Norte afirma que o traficante Olvio Bezerra Queiroz, detido no ano passado, associou-se a um tesoureiro do PCC para chefiar uma quadrilha interestadual de trfico de entorpecentes com atuaes tambm no Cear e na Paraba.
 
Os atentados em So Paulo em 2006 fizeram com que o PCC ganhasse prestgio pelo Pas, mas h lugares onde a influncia  nula, como no Rio de Janeiro, diz Guaracy Mingardi, que coordenou por oito anos o setor de Inteligncia do Ministrio Pblico e  ex-subsecretrio Nacional da Segurana Pblica. A presena  mais slida nas cadeias do Paran, de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Estados essenciais para controle de rotas de trfico de drogas e armas. Como controla boa parte do comrcio de entorpecentes em So Paulo, onde esto os aeroportos, rodovias e porto mais movimentados do Pas, o PCC  o fornecedor principal das quadrilhas nordestinas. A chegada de pasta de coca  Bahia e sua distribuio para os traficantes passa, invariavelmente, por membros ligados ao PCC, afirma o promotor Ariovaldo Figueiredo, chefe do grupo de combate ao crime organizado do MP baiano. Na prpria disputa por venda de drogas no Estado h digitais paulistas. Faces criminosas locais, inclusive com apoio do PCC, travam uma guerra urbana e o resultado pode ser contabilizado numa sangrenta matana, afirma Figueiredo. O nmero de homicdios na Bahia aumentou mais de 450%, no perodo 1999-2010, segundo o Mapa da Violncia, do Instituto Sangari.

Existe outra modalidade de aproximao entre o PCC e a bandidagem local: o ensinamento de tcnicas criminosas por especialistas de So Paulo. Em maio, o lder de uma quadrilha de assaltantes de caixas eletrnicos em Santa Catarina, Jos Luiz Freitas, 34 anos, recebeu treinamento de colegas paulistas em um stio em Itaja. Obteve tambm armamento, munio e o TNT em gel para explodir os terminais. Freitas entrou para o grupo h quatro anos. Parte do dinheiro arrecadado nas aes, que variava de 40% a 50% do valor de cada roubo, era enviado ao PCC, diz o delegado Diego Azevedo, que o prendeu. Em Santa Catarina, documentos da Justia estadual revelam que foi criado, h pelo menos sete anos, o Primeiro Grupo Catarinense, ligado  cpula do PCC.
 
Por mais que seja minimizada pelas autoridades da segurana pblica de So Paulo, a ascenso do PCC ainda se concentra em territrio paulista, onde est presente em pelo menos 123 cidades, segundo documentos em posse do Ministrio Pblico. Mas sua expanso causa preocupao a autoridades de outros Estados. ISTO apurou que as polcias de Minas Gerais, Paran, Santa Catarina e So Paulo trocam informaes frequentes sobre o grupo. O Conselho de Secretrios de Segurana do Nordeste, por sua vez, j debateu a presena do PCC na regio. A colaborao tem sido intensiva para evitar que o PCC seja to forte quanto  em So Paulo, diz o secretrio do Maranho, Alusio Mendes.

